Lembranças de quando eu era velho

Publicado: outubro 26, 2010 em Geral
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Texto de JM Cunha Santos (jornalista e poeta) publicado em seu blog em 2009. Homenagem ao Dia Internacional do Idoso

De repente o vendedor de tristezas bateu á minha janela anunciando coisas que curavam remorso, artrite, reumatismo e ensinavam como passar o tempo. Mas a idéia de passar o tempo conversando com as dores, do passado e do presente, me assustava.

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Entre seus tubos de ensaio cheios de pomadas contra rugas, de óleos para lubrificar os ossos, havia um cofo de lembranças de que eu já não lembrava mais: livros que li, mas a memória apagou; filmes que assisti à procura de heróis, músicas que já não tocavam mais.

O vendedor de tristezas oferecia televisores em preto e branco, máquinas de dactilografia, sapatos com cadarços, ternos sob medida, relógios à prova d’água e até uma entrada para o baile das debutantes. “Porque me vender tristezas se tristezas tenho tantas sem nenhum valor na bolsa de valores perdidos, sem importância alguma no mercado negro do amor”?

O vendedor de tristezas quis me empurrar discos da “Jovem Guarda”, literatura francesa, poemas de Castro Alves e até uma edição ainda bem cuidada do “10 dias que abalaram o mundo”.
“Moço, não vou comprar minhas próprias saudades”.

Mas aqueles livros, aqueles poemas, aquelas músicas (inclusive “Sem lenço, sem documento”, de Caetano Veloso e “Construção”, de Chico Buarque) traduziram a nostalgia mística, quase fanática de quem viu o televisor colorir, o relógio marcar o passado, a máquina de dactilografia virar computador, a carta de ABC se transformar em software, as botas virarem sapatos e os sapatos virarem botas de novo; de quem viu o carvoeiro desaparecer dentro do botijão de gás, de quem assistiu a ditadura virar democracia e a democracia, ainda jovem e despudorada, se corromper.

E, de repente, estávamos todos ali: eu, o vendedor de tristezas e toda uma geração de cabelos na testa, lendo, sem entender, Marx e Engles, Lênin e Trostski, Victor Hugo, Dostoyevski, Baudelaire, entre os poucos que tiveram chances de se abastecer de ilusões. Do outro lado, Roberto Carlos ainda cantava as irremovíveis ilusões de amor.

Hoje, nessa terra sem poetas, sem meninos desembestados se atirando contra os fuzis na ilusão de construir uma sociedade mais justa, este senhor insiste em me vender recordações. Mas limpo, tranqüilo, sem nenhuma forma de escravidão escolhida sequer ouso contestar a minha geração.

Passado, mas ainda brincando com as metralhadoras dos meus netos gerados em laboratórios, com os sentimentos de seus andróides prediletos, seus robôs que varrem casas, limpam corações e exploram o espaço, lembro que já fui velho.

Quando eu era velho era possível passear nas ruas sem ser assaltado por homens e desilusões; quando eu era velho o por do sol existia e existia também essa vontade de permanecer jovem para sempre.

Quando eu era velho ralhava com meninos que empunhavam baleeiras e matavam pássaros; Hoje os meninos empunham armas, matam homens e quase nada eu posso lhes dizer. Sou apenas um jovem. Feliz e cheio de saudades.

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